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segunda-feira, 23 de junho de 2014

EGO inflado


“Aquele que se sente alfinetado deve ter sido algum dia uma bolha…” Lao-Tsé


Amigos, hoje reproduzimos um artigo postado por Ana Luisa Testa, do site Terapia em Dia , por acharmos muito pertinente e por acharmos que ajuda no conhecimento de si mesmo. Segue então o artigo.

Autora: Ana Luisa Testa

Não sei se todos os leitores estão familiarizados com o termo “ego inflado”. Então vamos começar por ele. EGO* é uma palavra latina correspondente ao EU. Um egoísta é aquele que só pensa em si. Um egocêntrico é aquele que pensa ser o centro do universo. E um ego inflado é um ego que está para além de seus limites.
Gostaria de compartilhar com vocês a definição de inflação egóica que Edward Edinger faz no livro Ego e Arquétipo**:
“A definição apresentada no dicionário para inflação é: “Cheio de ar, dilatado pela ação do ar, irrealisticamente amplo e importante, além dos limites das próprias medidas; portanto, vaidoso, pomposo, orgulhoso, presunçoso.” Uso o termo inflação para descrever a atitude e o estado que acompanham a identificação do ego ao Si-mesmo. Trata-se de um estágio no qual algo pequeno (o ego) atribui a si qualidades de algo mais amplo (o Si-mesmo) e, portanto, está além das próprias medidas.”
 O Si-mesmo (ou self) é o arquétipo que corresponde à totalidade da psique, assim como seu centro organizador. Seria como uma representação psíquica do Todo, e até mesmo do divino. O Si-mesmo abrange tanto a consciência quanto o inconsciente.
Quando o ego está em um estado de inflação, é como se ele se identificasse com características próprias da divindade, do todo, e do centro.


Durante a infância é normal que nossa atitude seja a de se reconhecer como centro do mundo. Tanto porque nosso ego ainda está em construção, separando-se do inconsciente, quanto porque nosso ambiente nos trata dessa forma. Nós achamos que o mundo e as coisas são nossas por direito. Quando adultos, ficamos esperando que o estado, o chefe, o cônjuge, o terapeuta, Deus ou o destino  nos dê aquilo que falta, de forma muito passiva. E quando não ganhamos… raiva e tristeza emergem.
Quem puder, observe a fala e comportamento das crianças pequenas: “a mãe é minha, o irmão é meu, a bola é minha, quero isso, quero aquilo…”  e assim por diante. As crianças que são muito mimadas tendem a manter na idade adulta essa atitude de exigir que o mundo e as pessoas correspondam aos seus desejos.
Só um exemplo para ilustrar como funciona: tenho uma sobrinha que fez 8 anos mês passado. Fazemos aniversário em datas próximas, e ela mora em outra cidade. Na época do meu aniversário alguns familiares viriam para Curitiba me visitar, mas ela não queria, estava com preguiça de viajar. E então alguém comentou “e se sua tia não vier no seu?” A resposta veio logo, esbravejando ” Mas como que ela não vai vir no MEU aniversário?”
É engraçado ver como funciona a psique infantil. E para uma criança de 8 anos está perfeitamente normal. O problema é a manutenção desse comportamento em idade adulta. O que antes era bonitinho começa a ficar extremamente cansativo de se conviver e até mesmo doentio.
Uma psicose pode ilustrar perfeitamente esse estado de identificação do ego com o Si-mesmo. Eu não consigo imaginar quantas reencarnações de Jesus Cristo existem hoje na Terra. Ou então aquele indivíduo paranóico, que acredita estar sendo perseguido a todo momento por outra pessoa que quer derrubá-lo. Há uns meses atrás fui abordada na rua por um jovem que contou toda uma trama fantástica, que envolvia metade do mundo, numa conspiração para que ele não arrumasse emprego. Esse ego inflado não consegue admitir que não é tão especial assim. Se não arrumou emprego, só pode ser porque tem alguém sabotando.
O ego inflado se coloca em situações de risco – abuso de álcool, drogas, velocidade, sexo sem proteção, negócios ilícitos, e por aí vai, porque acha que nada pode acontecer com ele. É atribuir a si aspectos da divindade, ser Todo-poderoso e imortal.
Outro aspecto clássico que o ego pode “pegar emprestado” do arquétipo da divindade é a questão de ser o salvador. É o cara que quer ser o herói, ou aquela mulher que se envolve com o tipo mais cafajeste e errado e acha que vai salvá-lo dessa vida. Perceber que não consegue torna a vida dessa mulher muito sofrida, mas é justamente o que precisa para estourar a bolha. Quando ela puder admitir que não tem o poder para mudar o outro, e viver dentro da própria medida, as coisas ficam bem.
Isso pode acontecer com os profissionais da área da saúde, defensoria pública, policiais, religiosos e por aí vai. Acho que boa parte de nós pensa ser o salvador. Só que muitas vezes a gente perde. E aí, como fica?
A vida e a nossa psique naturalmente vai se encarregando de estourar nossa bolha, quantas vezes for necessário, até que possamos ficar dentro da medida que nos cabe. Então no fundo, temos que agradecer aos momentos de revés. Eles nos tiram da ilusão, e facilitam a convivência com o que nos cerca. Desinflar é algo extremamente necessário para que possamos nos situar adequadamente dentro de nossa realidade.

Só podemos torcer para que as alfinetadas, os tombos e os reveses venham. Com sorte, eles virão em uma medida que possamos aguentar. Se o estouro for proporcionalmente maior do que podemos aguentar, caímos em um estado de extrema “alienação do ego”. E pode ser que não sobre nada no que possamos nos agarrar para levantar novamente.
***

Obs:

*Ego = EU = Alma = Espírito


**Arquétipo, na Psicologia Analítica, significa a forma imaterial à qual os fenômenos psíquicos tendem a se moldar.1 C.G.Jung usou o termo para se referir a estruturas inatas que servem de matriz para a expressão e desenvolvimento da psique.