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quarta-feira, 1 de maio de 2013

PESQUISA EM PSIQUIATRIA - O USO DA ESPIRITUALIDADE EM PORTADORES DE DOENÇA MENTAL




O número de pesquisas no campo espiritual cresce a cada momento, estabelecendo parâmetros de sua relevância nas mais variadas áreas científicas, através de análises objetivando a melhora ou processos de cura de variados males.

O texto do post é de autoria de Frederico Camelo Leão Médico-psiquiatra e Mestre em Psiquiatria pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (IPq-FMUSP), Membro do Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Nervosos (NEPER) e Francisco Lotufo NetoMédico-psiquiatra, Livre-docente da FMUSP e Fundador do NEPER

O estudo por eles realizado teve como objetivo avaliar o impacto de práticas espirituais na evolução clínica e comportamental de pacientes portadores de deficiência mental internados em instituição de saúde. 

"Nós devemos praticar e defender o fato de que os psiquiatras são médicos da alma tanto quanto do corpo." Com essas palavras, a editora-chefe do American Journal of Psychiatry, Nancy Andreasen, aponta para um cenário que havia sido relegado pela pesquisa científica (Andreasen, 1996). Vimos surgir em diversas pesquisas uma busca de reaproximação entre ciência e religião. Esses dois campos de investigação têm se relacionado de maneira diversa na história da humanidade (Peters e Bennet, 2003). No estudo realizado por Hess (2003), são apresentados elementos da história da ciência ocidental reveladores da união intrínseca que existia anteriormente. 

Atualmente existem diversos centros de pesquisa científica que se dedicam a conduzir investigações sobre as relações entre saúde e espiritualidade. Nos EUA, por exemplo, as Universidades George Washington e Duke têm centros de pesquisa em espiritualidade e saúde. 

Outros centros, como Harvard Medical School e o Mind/Body Medical Institute of Deaconess Hospital em Boston conduzem cursos destinados a examinar as relações entre práticas médicas e religião. Outra referência importante é o curso oferecido pelo Johns Hopkins Medicine: Spirituality and Medicine Institute.
Na Europa, The Spirituality and Psychiatry Special Interest Group, do Royal College of Psychiatrists, dedica-se a pesquisas sobre as interferências espirituais na saúde mental.

Entre os pioneiros da área, David B. Larson contribuiu para mudanças quanto às representações de experiências religiosas e espirituais presentes na versão 3 do Diagnostic and Statistical Manual, (DSM-III-R) em relação à versão DSM-IV.
Koenig (2002), da Universidade de Duke, é autor de vários artigos que discutem de forma crítica as relações entre religião e saúde. Benson e Marg (1998), da Universidade de Harvard, também apontam as relações entre espiritualidade e cura. Astin et al. (2000), do Stanford University Center for Research in Disease Prevention, fizeram uma revisão sistemática da cura a distância para todo tipo de tratamento médico. Em 57% dos ensaios clínicos, verificou efeitos positivos.

No Brasil, Lotufo Neto (1997) afirma que ter uma orientação religiosa intrínseca pode ser benéfico à saúde mental. No entanto, a psiquiatria tem negligenciado avaliar os efeitos de uma atitude religiosa em seus pacientes. O Núcleo de Estudos de Problemas Espirituais e Religiosos (Neper), do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo, reúne vários dos pesquisadores nessa área. Na Unicamp, na área de saúde mental e espiritualidade, Giglio e Giglio (1991) são líderes do grupo de pesquisa em psicologia e religião. Nessa mesma instituição, outro pesquisador nessa linha de investigação é Dalgalarrondo (1991), cujas pesquisas associam vivências religiosas, aspectos culturais e psiquiatria.

A pesquisa que associa saúde e espiritualidade se depara com algumas dificuldades inerentes. O primeiro desafio é vencer o preconceito de que os assuntos relacionados à fé não podem ser estudados na ciência. O segundo problema refere-se aos conceitos de corpo, mente, espírito e alma. Definir as relações entre corpo e mente permanece sendo um grande enigma. Para alguns, a mente é um produto do cérebro (Crick, 1994). Para outros, a mente se localiza no corpo como um todo (Varela et al., 1991).

Em alguns casos, a religiosidade pode exercer efeitos negativos. O fanatismo, por exemplo, faz que pessoas religiosas muitas vezes excluam ou neguem condutas médicas. Além disso, vários indivíduos desenvolvem sintomas derivados de uma interpretação distorcida de preceitos religiosos. Entre os efeitos psicológicos negativos mais comuns, observam-se: geração de culpa; diminuição de auto-estima; repressão de raiva, ansiedade e medo por meio de crenças punitivas; favorecimento de dependência, conformismo e sugestionabilidade; desenvolvimento de intolerância e hostilidade aos que não seguem a mesma religião (Koenig, 2001).

A gênese do espiritismo tem sido associada às irmãs Fox. Em Hydesville, em 1847, as irmãs ouviram sons inexplicáveis e conduziram sessões com o objetivo de se comunicar com supostas entidades espirituais. A repercussão desses eventos e o interesse pelas manifestações "sobrenaturais" se propagaram até a Europa (Doyle, 2002).

Também nessa época, Hippolyte Leon Denizard Rivail começou a estudar sonambulismo e magnetismo. Na evolução de suas pesquisas, Rivail passou a se interessar por manifestações espíritas. Suas investigações são consideradas os fundamentos teóricos da doutrina espírita. Rivail publicou vários livros e assumiu o pseudônimo de Allan Kardec. Segundo os preceitos do espiritismo, os livros de Kardec são baseados em diálogos com espíritos por meio de comunicações mediúnicas. A partir da codificação de Kardec, o espiritismo foi se difundido para vários países, inclusive o Brasil. Na Itália, um grande pesquisador do espiritismo foi Ernesto Bozzano que privilegiava o aspecto psíquico. Suas pesquisas geraram vários trabalhos científicos sobre a existência dos espíritos (Silva, 1999).

No Brasil, o espiritismo assumiu características próprias. Os mais famosos nomes do espiritismo brasileiro se dedicaram a realizar obras com ênfase no aprimoramento moral. Entre os mais populares estão os médiuns Francisco Cândido Xavier e Divaldo Pereira Franco. Os brasileiros Bezerra de Menezes e Inácio Ferreira, ambos médicos, foram fundamentais para a difusão das idéias kardecistas (Stoll, 1999).

No Brasil, o espiritismo aceita, estimula e valoriza experiências dissociativas, tais como: incorporação espiritual e experiências fora do corpo. Existem várias instituições filantrópicas para o tratamento de transtornos mentais que visam a associar práticas médicas a religiosas. 

Os procedimentos utilizados são preces, energização e uso de mediunidade, segundo os princípios da doutrina espírita (Negro, 1999).
As comunicações recebidas pelos médiuns podem ter duas origens: um espírito desencarnado (de pessoa que já faleceu) ou um espírito encarnado (pessoa viva), embora a comunicação por meio de espíritos de desencarnados seja mais freqüente (Bozzano, 1940).

Historicamente, organizações religiosas têm fundado e mantido serviços de saúde mental em diversas regiões do planeta (Larson, 1997). Segundo uma pesquisa feita pelo Instituto Superior de Estudos da Religião (Iser) em parceria com a Universidade Johns Hopkins, o Brasil tem em torno de 220 mil instituições filantrópicas, agregando 10 milhões de voluntários, atendendo a cerca de 40 milhões de pessoas, isto é, cerca de um quarto da população brasileira. Segundo o censo demográfico de 2000, 1,3% da população se declarou espírita. A contribuição que o espiritismo oferece à sociedade brasileira por meio de seus hospitais filantrópicos é significativa, visto que a saúde pública é deficitária.

A instituição estudada, o Centro Espírita Nosso Lar Casas André Luiz (Cencal), oferece atendimento técnico multidisciplinar a 650 pacientes portadores de deficiências mental e múltiplas, que passam sua vida inteira no hospital. Nessa instituição, os pacientes recebem, em paralelo, atendimento espiritual, uma vez que o Cencal segue a filosofia espírita. As práticas espirituais não entram em conflito com os procedimentos da medicina convencional e envolvem aplicação de preces e realização de reuniões mediúnicas. Esta pesquisa focou-se nas atividades de assistência espiritual realizadas nas reuniões mediúnicas.

Um dos autores da presente pesquisa observou empiricamente variações positivas na evolução clínica e comportamental de pacientes que participaram das práticas espirituais (reuniões mediúnicas), mesmo quando eles não estavam presentes fisicamente.

MÉTODO: Ensaio controlado comparando grupo experimental submetido à prática espiritual com grupo controle. O instrumento utilizado para obtenção dos dados foi a Escala de Observação Interativa de Pacientes Psiquiátricos Internados (EOIPPI).
RESULTADOS: A comparação do grupo controle (n = 20) com o grupo experimental (n = 20) verificou a diferença de variação entre os grupos (p = 0,045), demonstrando possíveis benefícios de tal intervenção.
CONCLUSÕES: A análise dos resultados obtidos no experimento confirmou a hipótese de que o uso das práticas espirituais apresenta resultados positivos na evolução clínica e comportamental de pacientes portadores de deficiência mental.