Avatar

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

A Comissão de Milão e os Estudos sobre a Médium Eusápia Paladino - Parte III

Eusápia Paladino

Olá, amigos. Chegamos ao nosso terceiro e último post sobre a Comissão de Milão e os estudos sobre a médium Eusápia Paladino. Àqueles que ainda não viram os outros dois posts anteriores, deixamos aqui os links: Parte I e Parte II.

III – Os fenômenos precedentemente observados, na escuridão, são obtidos, enfim, à luz, com a médium à vista 

Restava-nos, para chegar à inteira convicção, experimentar obter os fenômenos importantes na escuridão, sem entretanto perder de vista a médium. Pois que a escuridão é, ao que parece, bastante favorável à manifestação, era preciso deixar a escuridão aos fenômenos e manter a luz para nós e para a médium. Para isso, eis como procedemos na sessão de 6 de outubro: uma parte de um quarto foi separada da outra por uma cortina, para que ela ficasse na escuridão, e a médium foi colocada sentada em uma cadeira diante da abertura da cortina, com as costas para a parte escura: os braços, mãos, rosto e pés na parte clara do quarto. Atrás da cortina colocou-se uma pequena cadeira, com uma campainha, a meio metro pouco mais ou menos da cadeira da médium, e sobre outra mais afastada foi colocado um vaso cheio de argila úmida, perfeitamente lisa na superfície. Na parte clara fizemos círculo ao redor da mesa, que foi colocada diante da médium, tendo esta as mãos sempre seguras pelos seus vizinhos, os Srs. Schiaparelli e Du Prel.


Charles Richet
O aposento estava iluminado por uma lanterna de vidros encarnados colocada sobre outra mesa. Era a primeira vez que a médium se submetia a essas condições. Imediatamente os fenômenos começaram. Então, à luz de uma vela, sem vidros encarnados, vimos a cortina enfunar-se para o nosso lado; os vizinhos da médium, empurrando-a, sentiram resistência; a cadeira de um deles foi puxada com violência, sendo nela vibradas cinco pancadas, o que significava a necessidade de diminuir a luz. Acendemos, então, a lanterna encarnada, sem retirá-la do lugar, cobrindo-a, além disso, em parte com um pára-luz; pouco depois, porém, tiramos o pára-luz, tendo sido antes a lanterna colocada na mesa, em frente à médium. As bordas do orifício da cortina foram fixadas aos ângulos da mesa e, a pedido da médium, redobradas por baixo da sua cabeça e presas com alfinetes; então, sob a cabeça da médium começou alguma coisa a aparecer, repetidas vezes. O Doutor Aksakof levantou-se, colocou a mão na abertura da cortina, por cima da cabeça da médium, e comunicou logo que dedos o tocavam repetidamente; depois a sua mão foi puxada através da cortina e por fim sentiu que lhe entregavam alguma coisa; era a pequena cadeira, que ele segurou e que foi de novo tomada, caindo por derradeiro no chão. Todos os assistentes puseram a mão na abertura e sentiram o contato de mãos. No fundo escuro dessa abertura, por cima da cabeça da médium, os clarões azulados habituais apareceram várias vezes; o Sr. Schiaparelli foi tocado fortemente, através da cortina, nas costas e ao lado; a sua cabeça foi coberta e puxada para a parte escura, enquanto com a mão esquerda segurava sempre a direita da médium e com a mão direita segurava a esquerda do Sr. Fínzi. Nessa posição, sentiu-se tocado por dedos quentes, viu clarões descreverem curvas no ar e iluminando um pouco a mão ou o corpo a que pertenciam. Depois, voltando do seu lugar, viu que mão estranha começou a aparecer mais distintamente na abertura, isto é, sem ser retirada com tanta rapidez.

Carl du Prel
Como a médium jamais houvesse visto semelhante coisa, levantou a cabeça para olhar e imediatamente a mão lhe tocou o rosto. O Sr. Du Prel, sem deixar a mão da médium, passou a cabeça na abertura, por cima dela, e logo se sentiu tocado fortemente em diferentes partes e por vários dedos. Entre as duas cabeças, a mão se mostrou ainda. O Sr. Du Prel voltou ao seu lugar e o Sr. Aksakof apresentou um lápis na abertura; o lápis foi tomado pela mão e não caiu; pouco depois foi lançado através da abertura sobre a mesa. Uma vez apareceu um punho fechado sobre a cabeça da médium; pouco depois, a mão se abriu lentamente, ficando com os dedos separados. É impossível contar o número de vezes que essa mão apareceu e foi por nós tocada; basta dizer que nenhuma dúvida se tornava possível: Era uma verdadeira mão humana e viva que víamos e tocávamos, ao passo que na mesma ocasião o busto e os braços da médium ficavam visíveis e as suas mãos estavam seguras pelos seus dois vizinhos. No fim da sessão, o Sr. Du Prel foi o primeiro a penetrar na parte escura e anunciou uma impressão na argila. Com efeito, verificamos que a argila estava deformada por profunda depressão de cinco dedos pertencentes à mão direita (o que explicou o fato de um pedaço de argila ter sido atirado sobre a mesa, através do orifício da cortina, no fim da sessão) prova evidente de que não estávamos alucinados. Esses fatos se repetiram várias vezes, sob a mesma forma ou sob forma muito pouco diferente, nas sessões de 9, 13, 15, 17 e 18 de outubro.

Conclusão

Alexandre Aksakof
Assim, pois, todos os fenômenos maravilhosos que observamos na escuridão completa, ou quase completa, obtivemo-los também sem perder de vista a médium, nem um instante. Por isso, a sessão de 6 de outubro foi para nós a prova evidente e absoluta da exatidão das nossas observações anteriores na escuridão; foi a prova incontestável de que, para explicar os fenômenos na completa escuridão, não é absolutamente necessário supor uma fraude da médium, nem uma ilusão nossa; foi para nós a prova de que esses fenômenos podem resultar de uma causa idêntica à que os produz, quando a médium está visível, com uma luz suficiente para se lhe verificar a posição e os movimentos. Publicando este curto e incompleto relatório das nossas experiências, temos também o dever de dizer que as nossas convicções são as seguintes: 

1°- Que, nas circunstâncias dadas, nenhum dos fenômenos obtidos à luz mais ou menos intensa se poderia produzir com o auxílio de um artifício qualquer;

César Lombroso
2°- Que a mesma opinião pode ser mantida em grande parte para os fenômenos da escuridão completa. Apenas para alguns destes podíamos admitir, a rigor, a possibilidade de os imitar, por meio de qualquer hábil artifício da médium; todavia, segundo o que dissemos, é evidente que esta hipótese seria, não somente improvável, mas ainda inútil, no caso atual, pois que, mesmo admitindo-a, o conjunto dos fatos nitidamente provados não seria absolutamente atingido por ela.

Reconhecemos aliás que, sob o ponto de vista da ciência exata, as nossas experiências deixam ainda a desejar, porquanto foram empreendidas sem que pudéssemos saber do que tínhamos necessidade, e os diversos aparelhos que empregamos foram preparados e improvisados sob os cuidados dos Srs. Fínzi, Gerosa e Ermácora. Todavia, o que vimos e verificamos basta, a nosso ver, para provar que esses fenômenos são bem dignos da atenção dos sábios. Consideramo-nos no dever de exprimir publicamente o nosso reconhecimento ao Sr. Dom Ércole Chiaia, que prosseguiu durante longos anos com tanto zelo e paciência, a despeito dos clamores e difamações, no desenvolvimento da faculdade mediúnica dessa médium notável, chamando para ela a atenção dos homens de estudo e não tendo em vista senão um único fim: a vitória de uma verdade impopular. 


Alexandre Aksakof, Diretor do jornal “Os Estudos Psíquicos”, em Leipzig, Conselheiro de Estado de S. M. o Imperador da Rússia.

Giovanni Schiaparelli, Diretor do Observatório Astronômico de Milão.

Carl Du Prel, Doutor em Filosofia, de Munique.

Angelo Brofferio, Professor de Filosofia.

Giuseppe Gerosa, Professor de Física da Escola Real Superior de Agricultura de Portici.

G. B. Ermácora, Doutor em Física.

Giorgio Fínzi, Doutor em Física.

Charles Richet, Professor da Faculdade de Medicina de Paris, Diretor da “Revista Científica”.

César Lombroso, Professor da Faculdade de Medicina de Turim.

****