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terça-feira, 28 de outubro de 2014

Remontando às Origens: O caso Jonathan Koons


Olá amigos !

Transcrevermos aqui uma monografia de Ernesto Bozzano, onde ele, eminente pesquisador dos fenômenos espíritas, nos brinda com esse emocionante registro histórico que consta nos anais da ciência da alma - O Caso de Jonathan Koons.

O Texto é longo, mas extremamente interessante !

O caso em questão ocorreu pouco depois dos fenômenos de Hydesville. Os fenômenos relatados ocorreram cerca de 20 anos antes de William Crookes constatar os  mesmos fenômenos com o auxílio de vários médiuns, sendo o principal Daniel Dunglas Home.


***

Por Ernesto Bozzano

Na vida moderna, tão febril e agitada e na qual tudo muda, se transforma, progride ou degenera sem cessar, o tempo faz-nos eventualmente voltar o pensamento ao passado, para relembrar, com sentimentos de reconhecimento, os nomes de tantos obscuros trabalhadores da inteligência que contribuíram, coletivamente, para criar este meio ambiente de cultura e de bem-estar que nos torna tão orgulhosos. Estas reflexões melancólicas, embora expressas em termos gerais, podem ser atribuídas a todos os ramos do saber humano, mas limitar-me-ei aqui a aplicá-las em relação ao movimento espiritualista atual.

Neste domínio, com efeito, bem poucos pesquisadores se dão conta da necessidade de remontar, de tempos em tempos, às origens, comparando os resultados de hoje com aqueles a que chegaram os primeiros investigadores. E essa negligência não é apenas lastimável quanto aos que muito trabalharam e sofreram pela causa da Verdade; ela é mais deplorável ainda porque prejudica a evolução normal das doutrinas metapsíquicas.

Com efeito, nota-se muitas vezes que algumas das conclusões mais importantes a que chegamos em nossos dias e que parecem o resultado do nosso saber evoluído, já tinham sido alcançadas por nossos bravos pioneiros de há setenta anos.[i] Da mesma forma, encontram-se freqüentemente, nas atas de suas experiências, tentativas cheias de interesse e de originalidade dignas realmente de serem tiradas do esquecimento para que se possa renovar-lhes a aplicação.

Pensei então em fazer uma exposição crítica das pesquisas experimentais executadas em alguns dos numerosos “círculos” que se sucederam nos primeiros dez anos do movimento espiritualista, começando pelo “círculo” de Jonathan Koons, um homem que recebeu a paga do seu devotamento admirável ao serviço da nova Ciência da Alma com a sua própria ruína moral e financeira, o que constitui o destino de tantos precursores.

Creio útil indicar que as citações e os resumos das atas que aparecem neste trabalho foram tirados, na maior parte, da interessante obra histórica de Emma Hardinge-Britten Modern American Spiritualism (1870), de um ano muito raro da revista The Spiritual Telegraph (1853) e, em pequena parte, também do livro do prof. Robert Hare, Experimental Investigations (1855), bem como do primeiro volume da obra de Frank Podmore Modern Spiritualism (1902).

Jonathan Koons

Jonathan Koons era proprietário de uma modesta mas próspera granja, situada num distrito montanhoso do Condado de Athens, no Ohio, a 72 milhas de Columbus, a capital do Estado. Era pai de oito filhos e, até o começo do ano de 1852, a sua tranqüila existência decorrera absorvido inteiramente pelos seus deveres de pai e pelos cuidados da sua granja. No ponto de vista de religião, a sua mentalidade, essencialmente submetida à razão, se tinha revoltado cedo contra a imposição, pela fé de certos dogmas ultrapassados e absurdos e, oscilando de uma revolta à outra, caíra finalmente em um ateísmo absoluto.

Entrementes, as famosas manifestações mediúnicas de Hydesville se tinham produzido graças à mediunidade das irmãs Fox e várias famílias dos arredores haviam organizado “círculos de experimentação” com o fim de obter manifestações análogas. Uma família amiga de Koons havia tentado, por sua vez, a empresa, com bons resultados, e, certa noite, Koons deixou-se arrastar a uma dessas sessões. As manifestações às quais assistiu não foram de grande importância, mas ele voltou a casa com a convicção de que as batidas (raps), de natureza inteligente, que ouvira não eram obra da ingênua mocinha que desempenhava a função de médium.

Convidado para ir a outros “círculos”, ficou surpreso ao ouvir repetir por todas as personalidades mediúnicas [ii] que ele, Koons, possuía faculdades mediúnicas. Certa vez ouviu mesmo declarar, sem rebuços, que ele era o médium mais poderoso de sua época, que um dos seus filhos também era médium e que todos os membros da sua família eram sensitivos. Constituiriam excelentes elementos para as manifestações espíritas. O bom do granjeiro acolheu a espantosa notícia com uma explosão de riso, mas se deixou convencer a tentar a prova de sua mediunidade, formando um grupo familiar. A experiência teve um êxito de modo a autorizar toda a esperança, e mais do que isso, de acordo com as declarações das entidades comunicantes, verificou-se que um dos filhos de Koons, chamado Nahum, de 18 anos de idade, caía em transe, escrevia automaticamente e falava por inspiração.

Eis em que termos se exprimiu o próprio Jonathan Koons a respeito das suas primeiras experiências:

“Obtivemos as manifestações mais notáveis e de maior força que se produziram em todo o distrito, apesar do que, no que me dizia respeito, não chegava a convencer-me de que essas manifestações eram obras de “espíritos desencarnados”, continuando a atribuí-las à “eletricidade” e à “biologia”. Não podia adaptar-me à idéia da sobrevivência da alma. Reconhecia que certas manifestações eram maravilhosas, admitia não poder explicá-las, concordava em que entre elas havia algumas muito belas e elevadas, mas permanecia, assim mesmo, atormentado pelas dúvidas e seguia céptico, ao passo que a minha família e os meus amigos se pasmavam, ao contrário, de admiração, diante das comunicações angélicas que havíamos obtido.

Certo dia, finalmente, por meio da mediunidade de meu filho, as personalidades mediúnicas me disseram para construir, no jardim, um quarto de madeira, destinado exclusivamente às experiências, assim como uma mesa especial, tudo conforme planos e desenhos que me forneceriam. Depois disso eu poderia obter todas as provas que desejava, de modo a convencer centenas de pessoas, cépticas como eu, a respeito da existência e da sobrevivência da alma.

Decidido a ir ao fundo do mistério, pus-me à obra e construí, no jardim, uma sólida cabana de madeira, assim como a mesa, seguindo escrupulosamente os planos fornecidos. Depois disso, sempre conforme as instruções recebidas, coloquei papel e lápis sobre a mesa; fechei à chave o quarto, cuja porta selei, depois do que me pus em guarda diante dela. Decorrido o tempo fixado, abri-a e entrei, quando então achei as folhas de papel cheias de uma longa mensagem a mim dirigida e que continha ensinos, conselhos, promessas encorajadoras, censuras amáveis ao meu cepticismo e ainda provas íntimas e eloqüentes que demonstravam que essa mensagem provinha de uma inteligência espiritual sábia e elevada.

Prossegui, durante várias semanas, nessas experiências, reunindo um número considerável de comunicações obtidas no silêncio e o mistério de meu “quarto espírita”, sem a menor possibilidade de qualquer intervenção humana. Não é, pois, de surpreender que o meu inveterado cepticismo desaparecesse pouco a pouco e que as minhas perplexidades houvessem acabado por se transformar na certeza inabalável de que me achava nas mãos de uma falange de entidades espirituais sábias, poderosas e elevadas. Certo dia, os “invisíveis” ditaram uma lista de instrumentos de música e outros artigos que eu deveria procurar para colocar no quarto, de acordo com as instruções que me seriam dadas...”

Jonathan Koons e sua esposa, Abigail

É preciso acrescentar que o fenômeno da “escrita direta”, do qual se pôde ler a descrição, tornou-se, em seguida, o mais habitual nesse círculo de experimentadores e que a maior parte do tempo, quando ele se produzia, todas as pessoas podiam observar a mão espiritual, fosforescente, que grafava a mensagem com prodigiosa rapidez.

Adicionarei, para a história, que, nos anais das manifestações mediúnicas, era a segunda vez que se obtinha o fenômeno da “escrita direta”. Esse fenômeno já se tinha verificado pela primeira vez, em plena luz, em 1850, na casa do Hon. James F. Simmons, Senador dos Estados Unidos da América para o distrito de Rhode Island.

Antes de prosseguir na exposição das outras manifestações obtidas no “círculo” de Koons, preciso dizer uma palavra sobre a natureza das personalidades mediúnicas graças às quais elas se produziram, explicações fornecidas por elas próprias relativamente às condições em que produziam os fenômenos e as posteriores instruções dadas para facilitar a sua realização.

Os “espíritos-guias”, que se manifestavam nas experiências de Koons diziam ter vivido milhares de anos antes da época assinalada na história pela lenda de Adão e Eva; faziam-se chamar pelo nome genérico de Reis (Kings), porque se achavam na direção de diversas hierarquias espirituais. Acrescentaram que haviam recebido a missão de encaminhar os homens para a demonstração experimental da existência e da sobrevivência da alma. Disseram ainda que, levando em conta a falta de preparo espiritual dos homens, não viam outro meio para atingir o seu fim senão o de ferir antes a sua imaginação por meio de fenômenos psíquicos diversos e potentes e que, com esse propósito, haviam reunido falanges de espíritos inferiores, muito materializados e atraídos pelo mundo dos vivos, porque só eles estavam em condições de manipular os fluidos que se desprendiam dos médiuns, empregando-os na produção dos fenômenos, sob a direção e a vigilância de espíritos superiores. Observarei aqui que o chefe dessas falanges de espíritos inferiores disse ter vivido na Inglaterra no tempo de Carlos II, de ter sido um famoso corsário de sobrenome Morgan e falecido como cavaleiro da Coroa Inglesa e governador da Jamaica. Nas experiências de Koons, tomara o nome de “John King”. Teria sido o mesmo que se manifestou mais tarde pela médium Srta. Florence Cook, declarando-se pai de “Katie King”.


Os “espíritos-guias” forneceram a Koons, além disso, as instruções necessárias para a construção de uma “máquina espírita”, com o fim de detectar e localizar a aura magnética dos médiuns e assistentes, aura indispensável para a produção das manifestações espíritas. É lastimável que os historiadores do Espiritismo tenham todos negligenciado de fornecer uma descrição detalhada do aparelho em questão, descrição que apareceu em uma revista da época, The Spiritual Clarion. Seria, com efeito, muito interessante se se possuíssem indicações suficientes a respeito. A sua reconstrução seria provavelmente eficaz para a produção de uma grande parte dos fenômenos mediúnicos, pois que se tem provas indubitáveis de que o aparelho se mostrou muito eficaz nas experiências de Koons. Sabe-se apenas que era composto de elementos de cobre e de zinco, dispostos de um modo assaz complicado. De acordo com as diretivas dos “espíritos-guias”, essa “bateria eletromagnética” foi colocada no centro de uma grande mesa de madeira, sobre a qual eram dispostos os instrumentos de música e todos os objetos a serem utilizados nas manifestações.


Registremos também que os “espíritos-guias” haviam fornecido a Koons uma receita para preparar uma solução fosforescente a ser colocada sobre a “mesa mediúnica” a fim de que as mãos materializadas pudessem mergulhar-se nela, tornando-se assim visíveis em todos os seus movimentos.

Jonathan Koons e seu filho, Nahum
Antes de começar as suas novas manifestações objetivas, os “espíritos-guias” tiveram o cuidado de avisar que elas não tinham nenhum valor no ponto de vista da missão espiritual que lhes havia sido confiada, exceto como uma introdução necessária à missão mesma, que elas não estavam destinadas senão a impressionar os homens de maneira a abalar-lhes o cepticismo e a levá-los a refletir sobre os mistérios do ser. Em seguida, o chefe supremo dos “espíritos-guias” ditou, por meio da “escrita direta” uma longa mensagem, de elevado conteúdo, ao “círculo”, mensagem de que não me é possível reproduzir senão o começo e o fim. Ei-los:

“O espírito deste ser espiritual que se manifesta na Terra sob o nome simbólico de “King”, Servidor e Discípulo de Deus, deseja apresentar-se a Jonathan Koons e a todos. Eu vos escolhi para a realização dos meus fins por causa das faculdades mediúnicas, magnéticas, clarividentes que possuía e graças às quais os espíritos poderão exprimir, de viva voz ou por escrito, os seus pensamentos, sem expor muito a vê-los deformados pelas idéias preconcebidas dos médiuns ou mal transmitidas por causa de sua ignorância. Viemos ao vosso meio em conseqüência da necessidade urgente de novas verdades espirituais que hoje se manifestam entre os vivos. Não ignoramos que a nossa obra é repelida e condenada por um grande número de pessoas como uma armadilha de Satanás, desse Satanás que fazem questão de abominar, embora, na verdade, dele se sirvam constantemente para crucificar a Verdade, repudiando tudo o que contrasta com o seu pobre orgulho e os seus vãos preconceitos. Acreditais que eu me ufano por trazer a minha palavra aos vivos e ser ouvido? De modo algum, eu vos garanto e, no entanto, tenho a missão de tentar a prova, porque, se uma única ovelha desgarrada ouvir a minha voz e se dirigir ao redil da Verdade Espiritual, eu voltarei ao Pai Celestial que me enviou e lhe direi: “Minha missão está cumprida”.

John King Materializado
Por vontade expressa das personalidades mediúnicas, as sessões se realizaram em condições de rigoroso controle e, com esse fim, haviam ditado a disposição em que deveriam ser colocados os móveis, os objetos, os médiuns e os assistentes. Havia primeiramente uma grande mesa quadrada, no meio da qual era colocado o aparelho espírita; em torno dele ficavam os instrumentos de música e outros objetos a serem utilizados nas sessões. Vinha em seguida o tripé mediúnico, que era redondo e tinha um diâmetro de quatro pés. Dois médiuns e quatro experimentadores sentavam-se em semicírculo ao redor desse tripé, deixando livre o lado em que ficava a outra mesa. Finalmente, dispunham-se os outros assistentes em filas cerradas. A Sra. Emma Hardinge, o principal historiador desses fatos, aos quais assistiu, observa o seguinte:

“O quarto estava sempre cheio de gente, de modo que os assistentes cercavam os médiuns de todos os lados; por esse motivo o mínimo movimento de qualquer um deles seria logo percebido e qualquer esforço violento dos seus membros teria sido absolutamente impossível.”

Veremos, aliás, que a melhor prova em favor da autenticidade dos fenômenos é fornecida pela maneira como esses se realizavam.

Os principais instrumentos de música, colocados sobre a mesa grande, consistiam em dois tambores, uma harpa, uma guitarra, um violino, um acordeom, um pandeiro, um triângulo, uma trombeta e várias campainhas.

As manifestações podiam ser classificadas em duas categorias distintas: de um lado os fenômenos físicos e inteligentes, de uma força, de uma potência, de uma violência quase terrificantes; de outro lado os fenômenos físicos e inteligentes de natureza delicada, elevada, espiritual.

As sessões começavam quase sempre por batidas e ruídos estranhos, atordoantes, que podiam ser ouvidos em um raio de uma milha. Seguia-se uma alvorada formidável, tocada pelos tambores; em seguida fazia-se ouvir um ruído estridente, característico, produzido pela carga do “aparelho espirítico”. Uma vez terminada a carga, faziam-se provas de força, sacudindo, de modo violento, a forte viga de madeira da cabana, que oscilava ou estalava como se movida por um tremor de terra.

Era então a vez dos concertos musicais. Bastava que o médium Koons desse o sinal de abertura, tocando no seu violino. Logo todos os instrumentos entravam em ação, acompanhando a melodia que Koons havia entoado, guardando o ritmo, mas excedendo na potencialidade sonora das notas, levadas ao máximo que um músico humano pode atingir. Em outras circunstâncias, ao contrário, o concerto mediúnico decorria em melodias “celestiais”, desenvolvendo uma delicadeza de sentimentos que emocionava e entusiasmava o auditório. Por vezes, enfim, uma “voz espiritual” pedia o mais absoluto silêncio e ouviam-se então coros de vozes angelicais que pareciam chegar de remotas paragens, causando nas almas uma sensação incomum e profunda de misticismo e de mistério. Em seguida, esses coros pareciam aproximar-se lentamente até penetrar e ressoar no meio da sala. Seu efeito sobre o auditório era prodigioso e inesquecível, estando os seus narradores acordes em declarar que nada poderia dar uma idéia deles às pessoas que não os tinham ouvido.

Muitas vezes, quando os coros angelicais se faziam ouvir, o ar palpitava de pequenas chamas que volitavam de um lado para o outro com a agilidade e a volubilidade caprichosa dos insetos, mas com isto de especial: os seus movimentos seguiam o ritmo da música. Algumas vezes viam-se aparecer, no meio das chamas, mãos materializadas que tinham formas e dimensões diferentes e que deixavam cair sobre os assistentes folhas de papel pintadas com a solução fosforescente preparada por Koons. Essas mãos desciam, algum tempo depois, no meio dos assistentes que, graças ao papel fosforescente, estavam em condições de observá-las. Elas se deixavam apalpar livremente pelos experimentadores, entre os quais se achava às vezes o céptico exagerado que procurava segurar alguma delas, decidido a não deixar escapá-la, caso em que a mão se libertava prontamente, dissolvendo-se em vapor e se reconstituindo logo depois. Os que tinham contato com as mãos materializadas afirmavam, em termos concordantes, que elas pareciam em tudo idênticas às mãos humanas, menos por esta distinção: eram frias como as de um cadáver.
A propósito do fenômeno interessante das mãos que se desfaziam em vapor para se libertarem do aperto de certos experimentadores, importa notar que era a primeira vez que esse fenômeno era obtido nos grupos espíritas. O mesmo fenômeno ocorreu, a seguir, repetidamente com o médium D. D. Home e em algumas circunstâncias com Eusápia Palladino.

Um outro fenômeno teoricamente muito importante era o do diálogo estabelecido entre os experimentadores e seus mortos, pela “voz direta”. A esse respeito observa a Sra. Emma Hardinge o seguinte:

“Deve-se notar que vários visitantes que haviam desejado conservar-se inteiramente incógnitos foram chamados pelos seus nomes pelas personalidades mediúnicas. Nessas circunstâncias, os visitantes em questão, com grande surpresa afirmavam ter perfeitamente reconhecido o timbre de voz e o acento pessoal do desencarnado que se dizia presente e que lhes fornecia indicações absolutamente verídicas e íntimas relativamente às suas existências terrenas. São essas provas, de natureza irrefutável, que servirão para convencer centenas de pessoas a respeito da presença real dos espíritos dos mortos.”

Para a história, importa observar que o fenômeno da “voz direta” foi produzido, no círculo de Koons, pela primeira vez desde o início do movimento espírita, o que faz com que essa série de experiências marque uma data importante nos anais do Espiritismo. Bem entendido, o fenômeno não era inteiramente novo, pois encontram-se fatos dessa natureza em todas as histórias e tradições dos povos a partir da mais remota antiguidade. Sabe-se também que ele sempre se verificou espontaneamente, freqüentes vezes nos “fenômenos de assombração”. Entre os povos selvagens, têm sido assinalados exemplos esplêndidos de “voz direta” obtida experimentalmente. O que constituiu uma real novidade foi o emprego de um porta-voz para reforçar o volume das vozes dos espíritos, artifício que foi sugerido a Koons pelas personalidades mediúnicas.

No mesmo círculo foram também obtidas mensagens por “escrita direta”, a pedido dos experimentadores, casos em que, como já disse, podia perceber-se a mão fosforescente que escrevia. Eis um exemplo, escolhido ao acaso, entre as centenas que foram publicados. No relatório enviado à revista The Age of Progress pelo Sr. Stephen Dudley lê-se o seguinte episódio:

“Solicitei ao Sr. Koons pedisse aos espíritos para escrever uma mensagem para mim e logo um deles se apossou do papel e do lápis que eu havia depositado em cima da mesa. Devo dizer que me provera de papel de impressão, sem dimensões exatas e sem pautas, isto é, de papel diferente do que se pode achar nesse distrito afastado dos grandes centros ou, mais precisamente, que não se pode encontrar a não ser nas editoras. Havia também pensado em me prover de um lápis especial, que me fora fornecido pela Casa Flesheim, de Buffalo. O espírito colocou o papel bem defronte de mim e logo apareceu uma mão luminosa, indubitavelmente humana, que apanhou o lápis e começou a escrever com uma rapidez prodigiosa, que jamais a mão de um vivo poderia igualar. O papel, a mão e o lápis estavam tão perto de mim que eu poderia tocar neles sem sair do lugar, pelo que pude observar tudo de uma maneira completa e precisa. Meu vizinho estava de tal modo atento na observação do fenômeno que, em dado momento, aproximou mais sua cabeça. Então a mão que escrevia, com um movimento rápido, lhe deu com o lápis uma pequena pancada no nariz, provocando no curioso um vivo sobressalto de surpresa e de medo, em vista do que encolheu-se rapidamente. Alguém exprimiu o desejo de contemplar a mão mais de perto e essa depositou o lápis, adiantou-se, abrindo, fechando e movimentando os dedos, a fim de mostrar a flexibilidade das suas juntas e, ao mesmo tempo, a amabilidade do seu possuidor. Certa senhora, colocada um pouco longe, se queixava de não ver bem e a mão apanhou o papel, levou-o para defronte dela e escreveu várias linhas, para retornar em seguida ao seu lugar. Quando as duas páginas de papel ficaram cobertas de escrita, a mão dobrou-a com cuidado e entregou-ma com o lápis. Certifiquei-me de que o papel e o lápis eram bem os mesmo que eu tinha depositado sobre a mesa. Finalmente, a mão se mostrou sucessivamente a todos os assistentes, concedendo-lhes um aperto cordial. Um dos assistentes evitou, entretanto, tocá-la, certamente por timidez ou medo. Observamos todos que essa mão materializada era tão sólida quanto a de um vivo, porém mortalmente fria...”

Nahum Koons em 1921
Com isso termino a enumeração dos principais fenômenos que se produziam na “câmara espírita” de Jonathan Koons. Com efeito, seria inútil estender-me na descrição dos outros fenômenos menores, geralmente conhecidos, tais como os golpes desferidos em todos os cantos do quarto, os sopros de vento frio, os deslocamentos, as levitações de objetos, etc.
Pouca coisa restou das numerosas mensagens morais, didáticas, científicas e filosóficas redigidas por meio da “escrita direta”, pelo chefe supremo “King” e os outros espíritos que o assistiam. Os consulentes, com efeito, levaram consigo as longas mensagens obtidas. O Dr. J. Everett reuniu um certo número delas que publicou em um opúsculo do qual falaremos mais adiante. Jonathan Koons publicou, por sua vez, um resumo geral dos ensinamentos nelas contidos, que se revestem de um real interesse porque concordam, admiravelmente, com as conclusões às quais chegou-se hoje, relativamente à solução mais racional de alguns enigmas do mediunismo. No que se refere às condições necessárias para que os espíritos possam comunicar-se com os vivos, são muito instrutivas as observações seguintes. Escreve Koons:

“Numa longa comunicação dada por meio da “escrita direta” na “câmara espírita”, onde não se achava ninguém, lê-se que os espíritos, para se comunicarem com os vivos, empregam dois elementos principais. O primeiro é um elemento eletromagnético constituindo o substrato do “corpo etéreo” dos espíritos; o outro é a “aura física”, se desprendendo dos organismos dos médiuns e dos assistentes ou que é subtraída a substâncias inanimadas, “aura” que corresponde ao que se chama de “força vital”. A combinação dos dois elementos em apreço dá lugar a um terceiro elemento eminentemente ativo, embora passível de sofrer a influência do meio e sobretudo das emanações dos organismos humanos. Quando as condições permitem que o elemento espiritual eletromagnético seja o mais forte, então os espíritos se acham em condições de triunfar sobre as leis de coesão e gravitação; podem assim dissolver e reconstituir toda substância com uma rapidez enorme ou levantar no ar, transportar objetos mais ou menos pesados, tocar instrumentos de música e assim por diante, tudo isso graças à força que se acumulou com a ajuda da “bateria eletromagnética”. Do mesmo modo saturando-se desse elemento, os espíritos ficam em condições de entrar em relação com os seres vivos, empregando o lápis e a pena, escrevendo mensagens e desenhando. É ainda assim que eles produzem golpes e ruídos, fenômenos vibratórios e ondulatórios, que realizam manifestações luminosas ou que condensam as vibrações sonoras de maneira a reproduzir a voz humana, falando e cantando.”

No que concerne à parte científica e filosófica dos seus ensinos, direi que os “espíritos-guias” não cessam de exortar os experimentadores a submeter ao controle da razão as mensagens mediúnicas que obtêm. Explicam, com efeito, que é muito difícil para um espírito transmitir, aos vivos sem nenhuma alteração, o seu pensamento, porque os órgãos cerebrais de que se servem não estão sempre em condições de assimilar as idéias espirituais que lhes são transmitidas, seja por causa da cultura geral deficiente dos médiuns ou dos preconceitos enraizados na sua mente. Além disso, os “espíritos-guias” insistem no fato de que a linguagem humana é um meio muito imperfeito para a transmissão de concepções espirituais... Acrescentam que os espíritos, situados há muito tempo nas Esferas, tendo adquirido o hábito de transmitir os seus pensamentos com o auxílio de meios bem mais perfeitos que a palavra, perdem o hábito de se exprimir pela linguagem humana. Observam, finalmente, que o magnetismo dos médiuns limita e deforma os pensamentos transmitidos pelos espíritos, mesmo no caso da “escrita direta”, isso embora, aparentemente, toda participação das faculdades intelectuais dos médiuns, nessa operação, pareça estar excluída. Com efeito, a mão materializada, ainda que separada do organismo do médium, lhe está ligada por um cordão fluídico invisível e, salvo em raras circunstâncias, obedece à sua vontade. Quer dizer que a personalidade sonambúlica do médium é ainda a que registra e traduz, na linguagem humana, os pensamentos dos espíritos, transmitindo-a à mão que escreve.

Em resumo: os “espíritos-guias” afirmavam que as mensagens espirituais transmitidas aos vivos têm muito da mentalidade do médium, às vezes pela forma e às vezes pela substância, como as feições de uma forma materializada se assemelham quase sempre às do médium (esta última analogia é minha).
Examinando esses ensinamentos dos espíritos, ditados no decurso de 1852 a 1856, é curioso observar que a pesquisa moderna não conseguiu ultrapassá-los e ir mais longe. Nada de melhor foi obtido e se mantêm ainda idênticas conclusões quanto à explicação dos perturbadores enigmas próprios à investigação psíquica. Aqui vale acrescentar que, mesmo entre os investigadores mais competentes na matéria, há ainda um grande número que se recusa a acolher tais explicações, preferindo considerar o defeito de forma e conteúdo observados em certas mensagens teoricamente importantes, como provas de que as mensagens em questão não podem ser de origem espírita. Do mesmo modo, aproveitam-se da circunstância de as formas materializadas se assemelharem por vezes aos médiuns para acusá-los de fraude ou para, quando o controle é rigorosamente mantido, declarar que a forma materializada é, em todos os casos, apenas o duplo do médium. É, pois, útil recordar que desde os primeiros tempos do movimento espírita, as personalidades mediúnicas se preocuparam em responder, em termos adequados e racionais, às dúvidas teóricas engendradas pela maneira como se produziam certas manifestações mediúnicas.

Observarei que os “espíritos-guias” do círculo de Koons obviamente forneceram as explicações transcritas com a finalidade de justificar os defeitos de diferente natureza que se encontravam em suas próprias mensagens, nas quais os mais admiráveis ensinos de ordem moral, religiosa, científica e filosófica eram muitas vezes formulados em termos defeituosos. Verifica-se igualmente que os “espíritos-guias” tentaram, por várias vezes, explicar a natureza e a razão de ser do elemento elétrico do universo, assim como a natureza e a razão de ser do elemento magnético-vital nos organismos vivos, mas tiveram que renunciar ao propósito porque o seu pensamento era transmitido imperfeitamente, resultando as tentativas em um conjunto de frases desordenadas e indecifráveis, ainda que certos pensamentos cá e acolá bastem para revelar a alta significação científica que teria tido a mensagem se transmitida integralmente. Pelo contrário, quando se trata de assuntos menos árduos à mentalidade humana, os ensinos são formulados de modo mais feliz. É nesses últimos que se observa a eloqüente concordância habitual com as conclusões às quais chegaram hoje vários pesquisadores. Koons escreve o seguinte a esse respeito:

“Entre outras coisas, os espíritos ensinavam que o “corpo carnal” é penetrado, em todas as suas moléculas, por um “corpo espiritual”; que é nesse último que residem a consciência e a inteligência; que, no momento da morte, a consciência e a inteligência, juntamente com o “corpo espiritual”, se distanciam do “corpo carnal”; que o primeiro conserva temporariamente a forma humana e as tendências e disposições que o caracterizavam quando vivo. Em outras palavras, eles afirmavam que tanto o “corpo espiritual” quanto o “Espírito” que o penetra, ainda que destinados a um progresso glorioso e eterno, conservam, depois da morte, as tendências virtuosas ou viciosas de que tinham dado provas durante a existência terrestre, o que faz com que o “corpo espiritual” pareça grosseiro ou sutil, denso ou sublime, radioso como o Sol ou tenebroso como a noite, em perfeita relação com as condições morais e intelectuais nas quais se passou a existência terrena.”

No ponto de vista religioso, os “espíritos-guias” ensinavam que um elemento de verdade existe em todas as religiões, que todas essas são igualmente respeitáveis e necessárias porque cada uma se adapta ao grau de evolução atingido pelo povo que a professa. Eles condenavam, pois, e denunciavam asperamente a intolerância religiosa e toda espécie de dogmatismo sectário. Foi esta uma das causas que atraíram para o círculo de Koons os ressentimentos e as vinganças do clero. Os ministros das diferentes confissões cristãs se puseram de acordo para caluniar e difamar Jonathan Koons e toda a sua família, excitando, em seguida, contra ele, hordas de fanáticos. Koons viu então a sua casa invadida por comissões criadas arbitrariamente e esses juízes inquisidores tudo vasculharam, procurando descobrir as supostas fraudes, e submetendo-o a interrogatórios humilhantes. Koons viu em seguida sua granja ser incendiada, destruídas suas colheitas, insultados e ameaçados sua esposa e filhos. Como se isso não fosse bastante, o comentário dos prodígios, produzidos em sua casa, tendo-se largamente espalhado nos Estados Unidos, atraiu sobre o infeliz as censuras e a cólera do misoneísmo laico, começando pelos jornalistas e indo até aos sábios, fazendo todos o melhor por estigmatizar, com epítetos infamantes, a família Koons, que, segundo se apregoava, subtraía dinheiro aos imbecis e traficava com o mistério sagrado da morte. Tudo isso era dito e exercido contra um homem que acolhera sempre generosamente, em sua casa, hóspedes em grande número. Como a granja ficava perdida no meio do campo, ele, de contínuo, alojara e alimentara gratuitamente todos os seus hóspedes, até o dia em que, dois anos passados nesse sistema tão custoso de hospitalidade, se encontrara desprovido de recursos para viver.

A esse respeito deve-se observar que Frank Podmore, que, como se sabe, se obstinou durante toda a sua vida a reduzir a fenomenologia mediúnica inteira a simples telepatia, atribuindo precipitadamente as manifestações físicas e clarividentes, em massa, a fraudes dos médiuns (sem hesitar em insinuar suspeitas de fraudes mesmo em relação à personalidade íntegra de William Stainton Moses), deve-se observar, digo eu, que Podmore, quando chega, em sua história do Modern Spiritualism, às manifestações do círculo de Koons, dele fala apressadamente e passa, a seguir, a outro assunto, sem fazer comentários e sem formular nenhuma insinuação contra a honorabilidade desse infeliz que foi Koons. É difícil de ler essa passagem da obra de Podmore sem experimentar surpresa. Parece incrível que o autor, apesar de sua ausência de escrúpulos, não tenha chegado a imaginar alguma insinuação de fraude capaz de sustentar-se em face da lógica. A coisa podia, aliás, ser prevista a priori, pois que era impossível infirmar as centenas de atas existentes, todas atestando a realidade dos fenômenos em termos precisos, eficazes e concordantes, tornando impossível explicar pela fraude as modalidades pelas quais se manifestavam os fenômenos. Como explicar, com efeito, pela hipótese da fraude, o episódio das mãos materializadas que se dissolviam nas mãos dos experimentadores? Como explicar o fenômeno da “câmara espírita” que era abalada em suas bases como que por um tremor de terra? Como explicar o fenômeno das pequenas chamas mediúnicas que volitavam no ar, seguindo o ritmo da música? Como explicar o fenômeno da “voz direta” no qual as personalidades dos defuntos conversavam com o timbre de voz e o acento pessoal que tinham quando vivos, fornecendo detalhes verídicos e íntimos sobre as suas vidas terrenas? Como explicar o fenômeno da “escrita direta”, obtido em um lugar hermeticamente fechado e onde não havia ninguém, graças ao qual se respondia a perguntas formuladas, no momento, do lado de fora? Como explicar o fenômeno dos concertos de música em um quarto isolado no jardim e que não se prestava à introdução de comparsas? Para doze instrumentos de música, doze músicos são necessários; e de onde viriam eles? De onde viriam os suaves cantores dos “coros angelicais” que emocionavam de tal modo os assistentes?

Segue-se de tudo isso que as manifestações do círculo de Koons marcam uma data importante na história do Espiritismo moderno. O devotamento com o qual Jonathan Koons se consagrou à propaganda da Verdade, olvidando os seus interesses mais essenciais e se submetendo a um doloroso martírio moral e material, merece ser recompensado, transmitindo-se à posteridade seu nome cercado da gratidão eterna dos pesquisadores. O nome de Jonathan Koons tem, pois, direito a um lugar de destaque na história da nova Ciência da Alma.



[i]    Bozzano escrevia em 1925. (N. E.)
[ii]    Bozzano denomina os espíritos comunicantes “personalità medianiche”. Em 1940 publicou uma monografia com o título Personalità medianiche che si dichiarano Personalità subcoscienti. (N. E.)